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Com extenso patrimônio histórico, Santa Cruz torna-se segundo ‘Bairro Imperial’ do Rio

 Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio, se tornou na manhã desta terça-feira um ‘Bairro Imperial’, reconhecido por sua importância histórica e cultural. O projeto de lei aprovado na Câmara Municipal do Rio foi sancionado pelo prefeito em exercício Nilton Caldeira. A iniciativa foi uma parceria entre o Projeto Descubra Santa Cruz RJ, da guia de turismo Andressa de Aguiar Lobo, e o Núcleo de Orientação e Pesquisa Histórica de Santa Cruz (NOPH).
Inspirado em São Cristóvão, que por abrigar o Palácio Imperial foi o primeiro bairro a receber o título no Rio, o grupo reivindicava a classificação para Santa Cruz, cujo amplo complexo arquitetônico histórico deve ser preservado na memória da região e na História do Brasil.
Relíquia histórica, Santa Cruz tem um dos poucos hangares dos dirigíveis alemães Zeppelin - Reprodução/ Ecomuseu de Santa Cruz
Relíquia histórica, Santa Cruz tem um dos poucos hangares dos dirigíveis alemães ZeppelinReprodução/ Ecomuseu de Santa Cruz

Com 454 anos de fundação, Santa Cruz abrigou a primeira residência de veraneio da Família Imperial, antes dos Bragança mudarem o destino das férias para Petrópolis.

A nova lei determina que a Prefeitura do Rio adote medidas para divulgar a história de Santa Cruz. Além disso, todos os eventos e acontecimentos históricos, culturais, educacionais, turísticos e comemorativos locais deverão trazer a referência do “Bairro Imperial”.

Idealizadora do projeto, a guia de turismo Andressa de Aguiar Lobo nasceu em Santa Cruz e trabalhava em Copacabana, na Zona Sul do Rio, e também na cidade imperial de Petrópolis. Durante o isolamento domiciliar da pandemia da covid-19, ela se debruçou sobre a história do seu bairro e já começou a inverter esse roteiro, trazendo visitantes da Zona Sul e do Centro para conhecer Santa Cruz.

“Mensalmente, a gente faz caminhadas culturais para apresentar os patrimônios de Santa Cruz para a população. A contribuição é colaborativa. E a gente tem atraído inclusive pesquisadores e visitantes da Zona Sul e Região Central da cidade”.

A roteirista Claudia Gomes, 37, se mudou para Santa Cruz em 2018. Capixaba, ela achou que seria só uma experiência, mas acabou se apaixonando. Ela conta que o passeio guiado pelo bairro mudou seu olhar para o lugar.

A roteirista Claudia Gomes e a amiga Lúcia Morais visitam o Palacete Princesa Isabel, onde funciona o Ecomuseu Noph, em Santa Cruz - Arquivo pessoal
A roteirista Claudia Gomes e a amiga Lúcia Morais visitam o Palacete Princesa Isabel, onde funciona o Ecomuseu Noph, em Santa Cruz ; Arquivo pessoal

“Se o rei achava bom morar aqui, porque eu não vou achar?”, brinca. A roteirista considera importante a educação sobre o patrimônio do bairro para empoderar a população. “Não só para promover o turismo local. Mas, as crianças precisam entender o que o bairro significou no passado e o que significa hoje. Essa visibilidade é muito importante”, destaca.

A intenção de Andressa e do Núcleo de Orientação e Pesquisa Histórica de Santa Cruz (NOPH) é que dentro de cinco anos, Santa Cruz tenha um calendário oficial de eventos para movimentar o turismo no bairro.

“A ideia é colocar Santa Cruz no mapa turístico da cidade em cinco anos. Eu falo como quem acordava às 3 horas da madrugada para apresentar Petrópolis e outros destinos turísticos, que têm a história do Império. A gente não enxerga o potencial que Santa Cruz tem”, critica.

Santa Cruz conta com uma colônia japonesa, com o maior Centro de Tradições Gaúchas, fora do Rio Grande do Sul e com um comércio constituído por migrantes árabes, enumera Andressa. “A gente pode pensar em festas típicas. Temos conteúdo para promover eventos e atrair diferentes públicos”, explica a guia que também pretende incluir o bairro nas celebrações do bicentenário da independência brasileira em setembro deste ano.

“Dona Leopoldina recebeu José Bonifácio em 17 de janeiro de 1822 na Fazenda de Santa Cruz, onde começaram as tratativas para a Independência”, exemplifica. “Foi no Palácio em Santa Cruz que o imperador e sua família celebraram a primeira festa da nova nação”, complementa. É muita história.

Um dos autores do projeto de lei, o presidente da Câmara dos Vereadores Carlos Caiado ressaltou que o reconhecimento vem no ano do bicentenário da independência. “Santa Cruz tem uma história riquíssima que merece ser lembrada, valorizada e principalmente visitada pelos turistas e por quem gosta de conhecer a história da cidade e do Brasil. Nada mais justo do que reconhecer esse bairro histórico no ano em que se comemora o bicentenário da Independência. O bairro precisar ter essa referência referendada”, afirmou.

Santa Cruz faz limite com os municípios de Itaguaí, Seropédica e Nova Iguaçu, sendo o bairro mais distante da região Central do Rio. Lá estão guardados diversos legados imperiais: a antiga casa de Veraneio da Família Imperial, o antigo Cais Imperial da Baía de Sepetiba, o complexo arquitetônico da Escola Mixta Dom João e a terceira Sede do Matadouro Imperial, para citar alguns.

Nascido e criado em Santa Cruz, o cabeleireiro Ramom Adans, 36, critica justamente o que ele considera um esquecimento do bairro pelo Poder Público, que faz com que a região ganhe o noticiário por problemas na Segurança Pública e nos Transportes. “Mas, em Santa Cruz você consegue andar à noite tranquilamente sem ser assaltado. Existem famílias que estão aqui há muitos anos e se conhecem. A maior parte dos amigos de toda a vida moram aqui. Então, tem uma sensação de acolhimento pelo lugar que você cresceu. E também de revolta por parte desse esquecimento”, avalia.

Ramom Adans, na Praça Maquês de Herval, em Santa Cruz - Reprodução/ Arquivo pessoal
Ramom Adans, na Praça Maquês de Herval, em Santa CruzReprodução/ Arquivo pessoal

Ramom também critica o raro acesso à cultura no bairro. “Santa Cruz tem pouquíssima visibilidade, pouquíssimo acesso à cultura. O máximo que temos são os bailes, um entretenimento rápido, mas não tem shows, cinema. É um bairro muito acolhedor que precisa de atenção”, resume.

Um pouquinho da História

A Fazenda Jesuítica de Santa Cruz se tornou conhecida quando a Família Real escolheu sua sede, a onze léguas de distância da região central da cidade para fixar seu Palácio de Veraneio em terras de Piracema, como a população indígena chamava a região. A construção foi retratada por Debret no livro “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil” (1839).

Onde atualmente funciona o Fórum de Santa Cruz, funcionava o Complexo Arquitetônico da Escola Mixta Dom João, fundada por Dom Pedro II em 1885. A instituição recebia filhos libertos de escravizados e era uma das primeiras escolas que aceitava mulheres. Também oferecia cursos profissionalizantes e posteriormente recebeu as primeiras instalações do Hospital Pedro II.

Fonte: O Dia
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